Transformação Digital … pra quem?

(Artigo publicado no Diário do Nordeste, Coluna Egídio Serpa, em 24 de maio de 2022)

Transformação Digital não se faz dentro de quatro paredes! Urgi esta frase, recentemente, às margens da lagoa do Iate Clube numa entrevista animada pelo poeta e artista Totonho Laprovitera! Lembrei-me, de imediato, do que eu tinha dito ao saudoso Chico Bilas, lá nas beiradas dos anos 90, quando instalávamos no Diário do Nordeste a segunda página web em um jornal no Brasil. Alertava ao Bilas, ainda no século passado quando a internet era um fusquinha, que ela poderia se tornar uma ferramenta de desigualdade social.

Ideologias à parte (ou não) a verdade é que neste filme de mocinhos do cotidiano a internet tem sido agente duplo, jogando pesado em países subdesenvolvidos que tem a economia baseada em commodities a favor dos conglomerados high-techs que vendem a preço de milhares de bananas suas minúsculas rapaduras eletrônicas.

A “vibe” agora é Transformação Digital, como se ela não tivesse se iniciado no após guerra pelo modelo, vigente ainda hoje em nossos notebooks, do fantástico Von Neumann ao implementar a máquina do genial Alan Turing, desenhada em um guardanapo, depois de um Bourbon duplo, escondido de homofóbicos na penumbra de algum bar londrino.

Transformação Digital se apresenta tão tranquila quanto um cego em tiroteio num culto do Dataismo, religião preconizada por Yuval Harari sobre a entrega de nossa autonomia à Google, Waze e ao escambau digital. Nele, quem tem olho, computador e banda larga namora a filha do rei!

Neste mundo de Harari, o abismo digital tem aprofundado, e de forma exponencial em alguns países, o apartheid social reinante e que coloca em xeque a sensatez de nossa trajetória Sapiens, ao deitamos um clique na África e em nossas favelas urbanas.

A dialética a que se presta a tecnologia não é privilégio da internet, já nos provou Oppenheimer à revelia de Einstein. Não será diferente com o novo mantra Transformação Digital. Precisamos ficar atentos ao vermos políticas públicas de Transformação Digital sendo anunciadas com visões conservadoras com combustíveis clássicos, tidas como fenômeno de geração espontânea.

Uma luz no final do túnel nesta direção é a da Governadora Izolda Cela que nos brindou  com o Decreto sobre a Transição Energética do Estado. O Governo do Ceará se prepara para era digital em dois caminhos iniciais: o serviço ao cidadão, o principal, e o atendimento e integração na estrutura de suporte ao cidadão (secretarias, órgãos e Vinculadas da administração direta e indireta).

Para além dessa fronteira, a promoção da cultura da Transformação Digital é um dos pilares em favor da sociedade, encontrando do analfabetismo digital à conversão no emprego formal em plataformas digitais a real transformação.

Importante colocar em primeiro lugar a maioria da população que participará da transformação digital e nunca vai compreender as tecnologias diretas ou embarcadas nos transportes e infraestruturas em geral, na educação, na saúde, na segurança pública e em todas as atividades da vida humana, fauna e flora, doravante sujeitos a transformação digital, inclusive para os desafios e impactos das mudanças climáticas.

O IRACEMA Digital está construindo uma proposta com sugestões na perspectiva de colaborar com o Estado na Transformação Digital Humana. Para tanto, o IRACEMA Digital fez uma consulta pública com seus participantes e parceiros. Seu Presidente, Ricardo Liebmann, reforça a tese de que o objetivo maior da proposta deveria ser “Reduzir as desigualdades sociais através da Transformação Digital”.

Nesse arcabouço ampliado: reduzir o custo dos Governos aumentando a qualidade dos serviços aos cidadãos, melhorar o acesso a educação, a saúde, aos serviços sociais, encontrar a empregabilidade, transparência pública, proteger o meio ambiente, dar mais segurança são objetivos de uma Transformação Digital cidadã, diz Liebmann: “se não for para isso, não tem motivo de ser”.

Mauro Oliveira, Professor IFCE

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