Por Quem os LIVROS Dobram

Por Quem os LIVROS Dobram

(Este artigo foi publicado na Livraria BARCA, Café das Artes, em 28/mar/2020)

É fim de madrugada. A linha que separa o mar e o céu, lá longe onde a terra quebra, sustenta nuvens que saem de dentro do infinito. O sol matinal se anuncia um tanto apressado, como quem foge pela janela da amante. O frescor do vento alisa meus cabelos feito mãos de noiva à véspera. O cheiro de maresia à tarde me embriaga de paz, tal colo de mãe, dilatando meu sorriso Kolynos (Ah!). O som da maré é meu mantra preferido. Abro os olhos. O dégradé da noite revela-me amores esquecidos, enquanto jangadas solitárias espreitam, em vigília, a enseada violentada pelo neon dos bares do Mucuripe. Ora direis, Augusto Pontes: “Vida, vento, leva-me daqui”!

Caminho pés na areia, encontro o casal de alemães e sua sacola de “mercantil” cheia do lixo deixado na praia pelos “contumazes”. Mais à frente, mestre Santiago me espera para uma prosa em sua jangada. Suas velas, prontas para o take off, explodem ao vento como a felicidade dentro de mim. De longe, mestre Santiago já me aponta para seu amigo Manolin: lá vem o professor! Fico impressionado com seu vigor ao levantar os troncos que rolam a jangada até o mar. Quanta coragem nos 5, 10, 40 km mar adentro! E quando a velhice não mais lhe permitir o peixe nosso de cada dia?

Mestre Santiago tem em grande conta todo professor, doutor, esse pessoal formado, que estuda, vive lendo… no palavreado dele. E nos elogia tanto que chego a ter… “pena de nós”. Não imagina que nós, “esse pessoal que estuda”, não temos um “mirréis” da sua coragem diária, que nós, sociedade letrada, somos vaidosos, egoístas e solidários nas pandemias… quando nos atingem. Que a nossa Escola tem se equivocado no Dever de Casa de melhorar a sociedade. Somos nós, “pessoal que vive lendo”, que damos suporte e legitimidade a esta sociedade desigual.

Decidi contar ao mestre Santiago que nós, “esse pessoal formado”, não somos bem quem “o Imperador do Japão referenciaria”. Falhamos e não temos a humildade de reconhecer… a não ser que o mundo pare… INIMAGINÁVEL!

Corri manhã seguinte, madrugada tarde, ao seu encalço, enquanto aparecia um arco-íris, ali, bem ali … na linha que separa o mar e o céu, lá longe onde a terra quebra, sustenta nuvens que saem de dentro do infinito. Mas … vejam só, ali, bem ali…! Uma multidão, agitada feito pinguins ansiosos, aguardava esperançosa seu barco que teimava em não chegar. Quis chorar a perda do mestre Santiago, mas me pareceu banal.

Prometi-lhe, então, algo digno de sua saga no mar, sol fervente, feridas nas mãos, na luta diária contra Marlim. Prometi-me dizer aos meus alunos, em toda aula, que uma “Escola que é reflexo da sociedade não serve a ela,… nem pra ela” (In Escola Pra Valer).

Um dia (se o mundo parar… INIMAGINÁVEL!) a sociedade vai compreender que o pescador e o homem simples que recolhe o nosso lixo merecem o destaque dos artistas famosos e jogadores de futebol nos noticiários… daquela TV.

Mauro Oliveira

Professor IFCE Aracati (agradeço ao Prof Myrson Lima, Membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa, amigo e ex-professor, meu “guia literário”)

>>> Dedico esse artigo ao Karol Oliveira & Ronam Barbosa, agentes de justiça social <<<

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