Fibonacci, o bugueiro e o vírus embriagado!

Fibonacci, o bugueiro e o vírus embriagado!

(Este artigo foi publicado na Livraria BARCA, Café das Artes, em 19/mar/2020)

Já reparou que muitos fenômenos da natureza têm formatos parecidos? Da concha do caramujo à formação da via láctea, das geniais de Da Vinci às grandes pirâmides percebe-se uma beleza numérica que obedece à sequência de Fibonacci. Trata-se de uma série infinita onde o número seguinte é a soma dos dois anteriores (1,1,2,3,5,8…) popularizada pelo italiano Leonardo Fibonacci, em 1220, na obra Liber Abaci.

Fibonacci (re)entrou na minha vibe, recentemente, por ocasião da construção de um caramanchão em minha casa em Canoa Quebrada.  Quando olhei as estacas que seriam fixadas igualmente no muro, me deu um faniquito e gritei para o mestre carpinteiro: “Orlando, distribui as estacas na sequência de Fibonacci”. Seu Orlando me olhou de revestrés e rosnou: “Fiba o quê, dotô?”

Esta maldade involuntária com o Orlando seria vingada didaticamente pelo destino. Ao receber meus bolsistas em casa, não só mostrei a eles as estacas Fibonaccianas como os desafiei a encontrar as distâncias entre elas que obedecessem a famosa e misteriosa sequência.

Como profetizei, não ficaria impune nesta história. Ao sairmos, avistamos um Fiat atolado em areias velozes e furiosas. Era a nossa chance de escoteiro, a boa ação do dia! Mas não é “porque a velhinha está na esquina que ela quer atravessar a rua” (Fedro aos bolsistas de Platão)! À medida que retirávamos a areia ao redor do pneu, experimentando princípios de Física I (não aplicáveis a Fiat atolado), o carro preferido de Cesare Battisti ficava cada vez mais movediço (vixe Maria!).

E o bugueiro? Do meio do nada ele aparece feito um He-man aloprado, no momento certo, antes daquela vaia silenciosa (e dolorosa) que alunos reservam para quando a aula fracassa. Como ele tinha a “força”, a primeira providência (sensata) dele foi retirar-me do comando da operação. A segunda foi fazer tudo ao contrário do que eu tinha feito: colocar areia embaixo do pneu, levantando o carro. A terceira foi me pedir para trazer uma tramela. Rosnei na hora: “Treme o quê, dotô?”.

Fiat liberado, num sol de Sobral ao meio dia, meus bolsistas tiveram uma aula inesquecível de solidariedade e inteligência com o mestre bugueiro… que escafedeu-se, rumo da venta, sem dizer sua graça!

Dessa lição de sabedoria nativa, solidária e humana fiquei a pensar na ruma de vaidade, prepotência e egoísmo que nos permeia, a nós, terráqueos-sapiens, o cotidiano. Melhorar o mundo pra quê mesmo, hein? Imigrante, que se lasque no mar, fi’uma égua teimoso! Sem teto, que se fod@, vagabundo! Messiânicos (ricos), que solapem (impunes) seus (pobres) fiéis… e a grana Adeus! Lesbianos & gays, que se escondam, ora bolas! Negros, que morram nos porões, e se desintegrem! Periferias, que fiquem sem água … pra lavar as mãos (álcool-gel? hah!)! É o Darwinismo Social a nos impregnar … desses de estocarmos avidamente suprimentos, legitimando a “lei do Gerson”, acelerando o caos! É cada um por si. “Quem for podre que se quebre”!

De repente aparece um vírus “embriagado” e tudo se (des)conecta. O que era dos outros agora também é nosso! o problema agora é plural, coletivo. Aí, no “Dia que a terra parou”, o planeta se tornou mais nativo, solidário, humano… ou não! Diz aí, Raulzito!

Mauro Oliveira, Professor IFCE

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2 respostas para Fibonacci, o bugueiro e o vírus embriagado!

  1. Jair disse:

    Excelente, Mauro

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