Por quem os políticos dobram ?

Por quem os políticos dobram ?
(Este artigo foi publicado no jornal O POVO em 30 de nov de 2016)

É fim de madrugada. A linha que separa o mar e o céu, lá longe onde a terra quebra,
sustenta nuvens que saem de dentro do infinito. O sol matinal se anuncia um tanto
apressado, como quem foge pela janela da amante. O frescor do vento alisa meus
cabelos feito mãos de noiva na véspera. O cheiro de maresia à tarde me embriaga de
paz, tal colo de mãe, dilatando meu sorriso Kolynos (Ah!). O som da maré é meu
mantra preferido. Abro os olhos. O dégradé da noite revela-me amores esquecidos,
enquanto jangadas solitários espreitam, em vigília, a enseada violentada pelo neon dos
bares do Mucuripe. Ora direis, Augusto Pontes: “Vida, vento, leva-me daqui”!

Caminho pés na areia, encontro o casal de alemães e sua sacola de “mercantil” cheia
do lixo deixado na praia pelos contumazes. Mais à frente, mestre Santiago me espera
para uma prosa em sua jangada. Suas velas, prontas para o take off, explodem ao
vento como a felicidade dentro de mim. De longe, mestre Santiago já me aponta para
seu amigo Manolin: lá vem o professor! Fico impressionado com seu vigor ao levantar
os troncos que rolam a jangada até o mar. Quanta coragem nos 5, 10, 40 km mar a
dentro! E quando a velhice não mais lhe permitir o peixe nosso de cada dia?

Mestre Santiago tem em grande conta todo professor. E me elogia tanto que chego a
ter “pena de mim”. Não imagina que não nasci para o ofício. Que sou do tipo de levar
vantagem em tudo (lei do Gerson). O meu descaso com o contribuinte chega ao ponto
d´eu fazer greve e ficar em casa. Arrodeio alunos que me parecem complicados. Passo
logo todo mundo pra não ter prova final. Na verdade, eu gosto da escola é nas férias.
Se pudesse nem daria aula… tou nem aí!

Decidi contar ao mestre Santiago que nem todos nós professores somos quem “o
imperador do Japão referenciaria”. Corri manhã seguinte ao seu encalço. Mas …! Uma
multidão agitada, feito pinguins ansiosos, aguardava esperançosa seu barco que
teimava em não chegar. Quis chorar a perda do mestre mas me contive, pareceu-me
banal. Na noite anterior um ministro chorara a perda de um apartamento na Bahia… e
o pouco que restara de sua reputação.

Mauro Oliveira
Professor

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Este artigo é dedicado ao meu amigo Jorge Motta (dois Ts). Jorge foi, dentre outras mil responsabilidades governamentais, chefe de gabinete do Ministério das Comunicações a época em que eu fui Secretário de Telecomunicações, 2003/04. Jorge cuidou de mim como um quem cuida de um jardim, como um jangadeiro que volta à terra firme, como um pai que faz vigilância silenciosa e torce pelo filho! Obrigado Jorge.

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