Ah, se eu fosse milionário…!

Ah, se eu fosse milionário…!

(Este artigo foi publicado no jornal O POVO em 15 de julho de 2017)

Como qualquer beradeiro dos anos 1970, tempo em que os jovens acreditavam numa
política decente, comprei todos os discos LP (vinil) da MPB e dos Mestres. Desde
então, o violino de Vivaldi e a sanfona de Seu Luiz, filho de Januário, me cutucam feito
a espada mágica de Merlin em Excalibur.

Vivaldi tem algo de inebriante. Abri minha última aula com “Inverno”, minha preferida,
antes d´eu falar em bits e bytes. Um professor acaba levando à sala um pouco de sua
alma momentânea. Afinal, a aula é uma arte que imita a vida… ou será o contrário?,
diria Oscar Wilde!

Perguntei a meus alunos o que fariam se fossem milionários. Já tava meio sorumbático
com as respostas, até que o Nicodemos quebra a corrente, “o mundo sou eu”, e se
lembra do Bill Gates. Em 2000, Gates deixa a Microsoft e cria uma Fundação que
promove pesquisa sobre a aids e outros massacres aos irmãos da África. Em
2006, Warren Buffett, outro mais rico do mundo, contribui com US$ 30
bilhões, apoiando a Fundação do “concorrente”. No século 18, John Harvard lega a
metade do seu patrimônio ao que viria a ser a primeira universidade americana.

Por que no Brasil nossos bilionários não fazem parecido? Cultura, educação ou
ganância? Basta reparar numa noite estrelada do Cosmos de Carl Segan e perceber
que somos o “cocô do cavalo do bandido” na imensidão Láctea. Acumular, acumular,
acumular… Diga aí, mah, algo mais besta do que morrer bilionário? Quem se livrou do
“fogo dos infernos” e do negócio da “vida eterna” sabe bem: nada mais divino do que
melhorar a vida do outro! Quem são os nossos Gates, Buffetts e Havards brasileiros… e
os cearenses?

Eu me faço esta pergunta sempre que um jovem esquelético limpa o vidro do meu
fusquinha 4×4, esfomeado à cata de míseros centavos que, via de regra, costumamos
negar com a empáfia de um dedo indicador feito limpador de para-brisa. Quantos
destes jovens, “estrelas cadentes” imundas ao léu, seriam cidadãos de bem se a
soberba bilionária os iluminasse, feito a magia de Vivaldi?

Quanto custa a um bilionário dar ao jovem de rua a mesma oportunidade dada pela
“Dama do Lago ao Rei Arthur”, sua nobreza, a chance divina de um jovem de rua
retirar a espada cravada na pedra, sua dignidade!

Ei, e você aí, o que faria se fosse milionário?

Mauro Oliveira
Professor IFCE e pesquisador FUNCAP

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Por Quem os LIVROS Dobram

Por Quem os LIVROS Dobram

(Este artigo foi publicado na Livraria BARCA, Café das Artes, em 28/mar/2020)

É fim de madrugada. A linha que separa o mar e o céu, lá longe onde a terra quebra, sustenta nuvens que saem de dentro do infinito. O sol matinal se anuncia um tanto apressado, como quem foge pela janela da amante. O frescor do vento alisa meus cabelos feito mãos de noiva à véspera. O cheiro de maresia à tarde me embriaga de paz, tal colo de mãe, dilatando meu sorriso Kolynos (Ah!). O som da maré é meu mantra preferido. Abro os olhos. O dégradé da noite revela-me amores esquecidos, enquanto jangadas solitárias espreitam, em vigília, a enseada violentada pelo neon dos bares do Mucuripe. Ora direis, Augusto Pontes: “Vida, vento, leva-me daqui”!

Caminho pés na areia, encontro o casal de alemães e sua sacola de “mercantil” cheia do lixo deixado na praia pelos “contumazes”. Mais à frente, mestre Santiago me espera para uma prosa em sua jangada. Suas velas, prontas para o take off, explodem ao vento como a felicidade dentro de mim. De longe, mestre Santiago já me aponta para seu amigo Manolin: lá vem o professor! Fico impressionado com seu vigor ao levantar os troncos que rolam a jangada até o mar. Quanta coragem nos 5, 10, 40 km mar adentro! E quando a velhice não mais lhe permitir o peixe nosso de cada dia?

Mestre Santiago tem em grande conta todo professor, doutor, esse pessoal formado, que estuda, vive lendo… no palavreado dele. E nos elogia tanto que chego a ter… “pena de nós”. Não imagina que nós, “esse pessoal que estuda”, não temos um “mirréis” da sua coragem diária, que nós, sociedade letrada, somos vaidosos, egoístas e solidários nas pandemias… quando nos atingem. Que a nossa Escola tem se equivocado no Dever de Casa de melhorar a sociedade. Somos nós, “pessoal que vive lendo”, que damos suporte e legitimidade a esta sociedade desigual.

Decidi contar ao mestre Santiago que nós, “esse pessoal formado”, não somos bem quem “o Imperador do Japão referenciaria”. Falhamos e não temos a humildade de reconhecer… a não ser que o mundo pare… INIMAGINÁVEL!

Corri manhã seguinte, madrugada tarde, ao seu encalço, enquanto aparecia um arco-íris, ali, bem ali … na linha que separa o mar e o céu, lá longe onde a terra quebra, sustenta nuvens que saem de dentro do infinito. Mas … vejam só, ali, bem ali…! Uma multidão, agitada feito pinguins ansiosos, aguardava esperançosa seu barco que teimava em não chegar. Quis chorar a perda do mestre Santiago, mas me pareceu banal.

Prometi-lhe, então, algo digno de sua saga no mar, sol fervente, feridas nas mãos, na luta diária contra Marlim. Prometi-me dizer aos meus alunos, em toda aula, que uma “Escola que é reflexo da sociedade não serve a ela,… nem pra ela” (In Escola Pra Valer).

Um dia (se o mundo parar… INIMAGINÁVEL!) a sociedade vai compreender que o pescador e o homem simples que recolhe o nosso lixo merecem o destaque dos artistas famosos e jogadores de futebol nos noticiários… daquela TV.

Mauro Oliveira

Professor IFCE Aracati (agradeço ao Prof Myrson Lima, Membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa, amigo e ex-professor, meu “guia literário”)

>>> Dedico esse artigo ao Karol Oliveira & Ronam Barbosa, agentes de justiça social <<<

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7) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a AUDÁCIA

REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a AUDÁCIA

“A vida é a travessia de um rio. Meu filho, não a atravesse no porão do navio”. De repente, Jorjão, um zelador terceirizado do IFCE, entra tempestivamente na minha sala. com a AUDÁCIA de um pirata do bem ao saltar no convés. Dedo em riste, Jorjão decreta para meus alunos, enquanto os encara com um olhar de quem paga imposto: “vocês não podem sair dessa escola igual a vocês quando entraram nela. O Aracati precisa de vocês”. Numa atitude AUDAZ vinda de sua ALMA jovem, Jorjão diz com calma, sem medo, com empatia e resiliência para que serve uma Escola e mostra, na prática, de que pouco vale nossa inteligência… se escondida no porão do navio. (“Seja qual for o seu sonho, comece. A OUSADIA tem genialidade, poder e magia”).

>>> Dedico esse ensaio ao casal Ivana & Odorico Monteiro, agentes AUDAZES da Saúde da Família <<<

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6) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre Resiliência

6) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre Resiliência

“Uma escola que é reflexo da sociedade não serve pra ela… nem a ela”. Com calma, sem medo, com paciência e empatia, sua ALMA jovem será capaz de melhorar a sociedade. Uma Escola Pra Valer poderá ajudá-lo a lidar com problemas novos, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos, resistir à situações adversas, fortalecer sua “imunidade mental”, base para a resiliência emocional. Assim, quando você for tentado a mentir, a humilhar ou ser injusto, que sua ALMA Jovem, resiliente, honre sua Escola que o preparou para ser “dono de seu destino, capitão de sua alma” no mar aberto da vida! (Coração de estudante, há que se cuidar da vida, há que se cuidar do mundo...)

>>> Dedico esse ensaio à Sandrinha e Raimundo Macedo, Presidente da SBC, ALMA jovem do tempo da Rádio Uirapuru de Itapipoca, a primeira rádio da internet <<<

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5) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a ALMA

5) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a ALMA jovem

“Nunca diga aos jovens que os seus sonhos são impossíveis. Nada seria mais dramático e seria uma tragédia se eles acreditassem nisso”. Shakespeare e Gonzaguinha são ALMAs jovens, acreditam que a “vida devia ser bem melhor e será”. É preciso constante evolução, fruto da inquietação, pra se ter ALMA jovem. O inquieto, por não ter idade, compreende-se na transcendência do seu tempo. Ter ALMA jovem é melhor que ser jovem, é estar preparado pra se renovar, se começar, se começar de novo, … enfrentando desafios novos, como as ondas do mar  … com calma, sem medo, com paciência, com empatia… com a ALMA jovem … (“minha alma cheira a talco, como bumbum de bebê, de bebê…“)

>>> Dedico esse ensaio ao casal Galeara & Eudes, amigos do Seu Mauro do Colégio Batista <<<

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4) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a EMPATIA

4) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a EMPATIA

“Não fostes tu, Sancho, mas eu mesmo quem tentou tirar o máximo de mim…É o melhor que o homem pode fazer na vida”. A vibe cognitiva de um Sancho afetivo leva Quixote de Cervantes a dizer-se, ao final de sua caminhada. Afinal, quem era o louco? Quem não o é… um pouco? Todos são normais em seus mundos loucos! Seria LOUCO alguém imaginar, dias depois do Carnaval, ser NORMAL todos preocupados com todos? Quem seria capaz de tamanha provocação, senão um virus embriagado, hein? Com calma, sem medo, com paciência e EMPATIA podemos ser espíritos livres, “Humano, Demasiado Humano”,… mais preparados, agora, para um novo Zepelin… (“o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos, e o banqueiro com um milhão. Vai com ele, vai Geni…”)

>>> Dedico esse ensaio ao casal Regina & Myrson, amigos de Dona Gelita <<<

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3) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a PACIÊNCIA

3) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a PACIÊNCIA

Quando as máscaras dentro de um avião caem, meio a uma turbulência, a voz do piloto é firme: “coloque a máscara primeiro em você”, independente de quem esteja ao lado! Porque só podemos ajudar o outro se estivermos bem e, se possível, …  com calma, sem medo, com paciência. Isso mesmo, com PACIÊNCIA, deixando o tempo passar. Posto que o tempo é apenas uma dimensão einsteiniana, o isolamento pode ser uma ilusão … continuamos conectados… (“mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, Até quando o corpo pede um pouco mais de alma, A vida não para”).

>>> Dedico esse ensaio ao casal Simone & Cesar, amigos de muito… <<<

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2) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre o MEDO !

2) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre o MEDO !

Na estrada há o perigo do acidente, no mar a mordida do invisível tubarão, na rua pode cair o raio que parte! Viver é perigoso, já dizia Riobaldo! Mas o “perigo é ter medo”. Que o digam os homens e mulheres “De Branco” que avançam destemidamente na linha de frente encarando o medo, esse desconhecido que pode alertar ou paralisar… por que o “perigo é ser dominado pelo medo”!  Viva estes homens e mulheres do planeta “De Branco” sem MEDO… Viva uma vida sem medos…  “Morre o meu medo e isto não é segredo, Eu mando buscar outro lá no Piauí

>>> Dedico esse ensaio ao casal Isa & LF, amigos … de sempre, para sempre <<<

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1) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a CALMA!

1) REFLEXÕES QUE VÊM DO MAR: Sobre a CALMA

CALMA, tudo PASSA! … assim como as ondas do mar, tudo vem e vai! Algumas ondas a gente recebe peito aberto, rindo; outras arrebentam em nossas costas e continuamos firmes… de repente, vem uma onda grande, BEM grande, MUITO grande, dessas que a gente nunca viu… e nos assusta GRANDE, MUITO. Olhamos pra ela de frente, … e, mantendo a serenidade, a gente se abaixa, com humildade, pensativo, e deixa ela PASSAR! E ela passa… e nos reerguemos melhores, fortes… (” aquilo que não nos mata, só nos fortalece”).

>>> Dedico esse ensaio ao casal Mônica & Paulo, amigos do Raimundo … vasto mundo<<<

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Fibonacci, o bugueiro e o vírus embriagado!

Fibonacci, o bugueiro e o vírus embriagado!

(Este artigo foi publicado na Livraria BARCA, Café das Artes, em 19/mar/2020)

Já reparou que muitos fenômenos da natureza têm formatos parecidos? Da concha do caramujo à formação da via láctea, das geniais de Da Vinci às grandes pirâmides percebe-se uma beleza numérica que obedece à sequência de Fibonacci. Trata-se de uma série infinita onde o número seguinte é a soma dos dois anteriores (1,1,2,3,5,8…) popularizada pelo italiano Leonardo Fibonacci, em 1220, na obra Liber Abaci.

Fibonacci (re)entrou na minha vibe, recentemente, por ocasião da construção de um caramanchão em minha casa em Canoa Quebrada.  Quando olhei as estacas que seriam fixadas igualmente no muro, me deu um faniquito e gritei para o mestre carpinteiro: “Orlando, distribui as estacas na sequência de Fibonacci”. Seu Orlando me olhou de revestrés e rosnou: “Fiba o quê, dotô?”

Esta maldade involuntária com o Orlando seria vingada didaticamente pelo destino. Ao receber meus bolsistas em casa, não só mostrei a eles as estacas Fibonaccianas como os desafiei a encontrar as distâncias entre elas que obedecessem a famosa e misteriosa sequência.

Como profetizei, não ficaria impune nesta história. Ao sairmos, avistamos um Fiat atolado em areias velozes e furiosas. Era a nossa chance de escoteiro, a boa ação do dia! Mas não é “porque a velhinha está na esquina que ela quer atravessar a rua” (Fedro aos bolsistas de Platão)! À medida que retirávamos a areia ao redor do pneu, experimentando princípios de Física I (não aplicáveis a Fiat atolado), o carro preferido de Cesare Battisti ficava cada vez mais movediço (vixe Maria!).

E o bugueiro? Do meio do nada ele aparece feito um He-man aloprado, no momento certo, antes daquela vaia silenciosa (e dolorosa) que alunos reservam para quando a aula fracassa. Como ele tinha a “força”, a primeira providência (sensata) dele foi retirar-me do comando da operação. A segunda foi fazer tudo ao contrário do que eu tinha feito: colocar areia embaixo do pneu, levantando o carro. A terceira foi me pedir para trazer uma tramela. Rosnei na hora: “Treme o quê, dotô?”.

Fiat liberado, num sol de Sobral ao meio dia, meus bolsistas tiveram uma aula inesquecível de solidariedade e inteligência com o mestre bugueiro… que escafedeu-se, rumo da venta, sem dizer sua graça!

Dessa lição de sabedoria nativa, solidária e humana fiquei a pensar na ruma de vaidade, prepotência e egoísmo que nos permeia, a nós, terráqueos-sapiens, o cotidiano. Melhorar o mundo pra quê mesmo, hein? Imigrante, que se lasque no mar, fi’uma égua teimoso! Sem teto, que se fod@, vagabundo! Messiânicos (ricos), que solapem (impunes) seus (pobres) fiéis… e a grana Adeus! Lesbianos & gays, que se escondam, ora bolas! Negros, que morram nos porões, e se desintegrem! Periferias, que fiquem sem água … pra lavar as mãos (álcool-gel? hah!)! É o Darwinismo Social a nos impregnar … desses de estocarmos avidamente suprimentos, legitimando a “lei do Gerson”, acelerando o caos! É cada um por si. “Quem for podre que se quebre”!

De repente aparece um vírus “embriagado” e tudo se (des)conecta. O que era dos outros agora também é nosso! o problema agora é plural, coletivo. Aí, no “Dia que a terra parou”, o planeta se tornou mais nativo, solidário, humano… ou não! Diz aí, Raulzito!

Mauro Oliveira, Professor IFCE

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